Interpretação, aplicação e decisão - receita culinária
No procedimento existem os três momentos: a interpretação, a aplicação e a decisão. Estes estão ligados entre si e são chamados a atuar em várias decisões e momentos. Nesses momentos existem atos discricionários e poderes vinculados. Sendo que qualquer decisão possui, em simultâneo, atos discricionários e poderes vinculados.
Aplicando estes conceitos aos de uma receita culinária, vejamos:
Receita de confecção de bacalhau à braz.
Ingredientes:
→ 500gr de bacalhau desfiado demolhado
→ 1 cebola grande
→ 2/3 dente de alho
→ 300gr de batata palha frita. A origem da batata constitui um ato discricionário, contudo a fritura é um poder vinculado porque a batata tem de ser frita para a confecção da receita.
→ 1 folha de louro
→ Azeite q.b.
→ 6 ovos + 2 gemas. A qualidade dos ovos e a proveniência é um ato discricionário.
1 mão cheia de azeitonas pretas
→ 1. Corte 1 cebola em meias luas.
A expressão meias luas necessita de ser submetida ao processo interpretativo. A lua é um satélite natural, pelo que a expressão meia lua irá significar metade da forma da lua. Aplicando isto a uma cebola, significa cortar uma cebola em dois semicírculos. Surge aqui a questão de saber em quantas meias luas se requer que se corte a cebola, o que a receita não específica. Cabe referir que a quantidade de cortes em meia lua pode depender do tamanho da cebola, sendo esta uma cebola grande como consta da lista de ingredientes, a quantidade de cortes pode ser variável. Pelo que este será um ato discricionário.
→ 2. Coloque azeite no fundo de uma frigideira alta, a aquecer, junte a cebola e o louro e deixe refogar.
Este ponto da receita suscita duas questões: em primeiro lugar no que respeita à quantidade de azeite e um segundo ponto referente à expressão "refogar".
A quantidade de azeita descrita como "q.b" ou "quanto baste",
[É abreviatura muito usada em receitas culinárias para indicar que a quantidade de determinado ingrediente deve ser aquela que cada um considera suficiente ou necessária.] dada a subjetividade da quantidade, esta será um ato discricionário, visto que depende da vontade e noção de cada pessoa ao executar a receita.
A quantidade de cebola e do louro consiste num poder vinculado. Isto porque para adquirir o resultado de boa confecção é necessário cumprir com os ingredientes e com a quantidade enunciados na receita.
A expressão refogar: para alguém que não tem experiência culinária deve ser uma expressão que suscita dúvidas, quanto ao seu significado e aplicação.
Refogar consiste em fritar mexendo continuamente e rapidamente os alimentos com apenas um pouco de gordura quente para eles ganharem cor, sabor e textura. Apesar da técnica culinária ser um poder vinculado, a maneira como cada pessoa faz o refogado é diferente - nomeadamente na medida em que mexem o conteúdo mas também no ponto do refogado. Uma vez que para alguns basta refogar durante pouco tempo enquanto para outros deve tentar-se atingir o máximo de tempo possível. Assim sendo o refogado acaba por ser um ato discricionário, embora a técnica em si seja um poder vinculado na medida em que é necessária para a obtenção da receita final.
→ 3. Deite o bacalhau sobre um pano e esprema a água do descongelamento, no lava-loiça. A seguir, dê uma amassadela para desfiar mais.
Este passo em si é um poder vinculado, parte do processo do descongelamento do bacalhau.
Por sua vez a amassadela feita ao bacalhau para o desfiar é um ato discricionário. Uma vez que cabe a cada um perceber até que nível quer desfiar o bacalhau, se muito ou pouco.
→ 4. Pique os dentes de alho, junte à frigideira e mexa. Junte o bacalhau, calque e misture bem com a cebola.
Picar os dentes de alho necessita de ser interpretado, dado que picar significa cortar em pedaços muito pequenos, neste caso e aplicando, cortar os dentes de alho em pedaços muito pequenos.
A expressão calcar o bacalhau significa esmagar as suas tiras e misturar as mesmas com a cebola.
→ 5. Afaste a frigideira do lume, junte metade das batatas palha frita e misture.
É um poder vinculado, não suscitando grandes questões interpretativas.
→ 6. Parta os ovos para dentro de uma taça, coloque 1 gole de água, tempere de sal e pimenta e bata bem.
A expressão "um gole de água" consiste num ato discricionário, uma vez que depende daquilo que cada um entende como gole de água, dado que cada um de nós bebe água em quantidades diferentes.
A expressão "tempere de sal e pimenta". Apesar da utilização de sal e pimenta ser um poder vinculado na medida em que ambos são necessários para dar sabor à receita. A quantidade utilizada em cada na confeção depende da vontade e noção de cada um. Pelo que acabará por ser um ato discricionário.
→ 7. Retire o louro da frigideira, junte os ovos e misture bem (se estiver muito líquido, pode levar ao lume um pouco).
Este ponto não suscita questões interpretativas. No entanto o tempo pelo qual se pode levar ao lume a mistura dos ovos é discricionária, pelo que depende daquilo que a pessoa que está a confecionar entende como suficiente para aumentar a espessura.
→ 8. Junte a salsa picada e as azeitonas.
Este ponto não suscita questões interpretativas.
Elaborado pela aluna Maria Inês Oliveira - 140122080
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